Há, no seio de uma ostra, um movimento – ainda que imperceptível. Qualquer coisa imiscuiu-se pela fissura, uma partícula qualquer, diminuta e invisível. Venceu as paredes lacradas, que se fecham como a boca que tem medo de deixar escapar um segredo. Venceu. E agora penetra o núcleo da ostra, contaminando-lhe a própria substância. A ostra reage, imediatamente. E começa a secretar o nácar. É um mecanismo de defesa, uma tentativa de purificação contra a partícula invasora. Com uma paciência de fundo de mar, a ostra profanada continua seu trabalho incansável, secretando por anos a fio o nácar que aos poucos se vai solidificando. É dessa solidificação que nascem as pérolas. As pérolas são, assim, o resultado de uma contaminação. A arte por vezes também. A arte é quase sempre a transformação da dor. […] Escrever é preciso. É preciso continuar secretando o nácar, formar a pérola que talvez seja imperfeita, que talvez jamais seja encontrada e viva para sempre encerrada no fundo do mar. Talvez estas, as pérolas esquecidas, jamais achadas, as pérolas intocadas e por isso absolutas em si mesmas, guardem em si uma parcela faiscante da eternidade. No texto, o autor faz uma relação entre elementos para representar algo e essa comparação nos leva a perceber que *

(A) a representação da ostra ao ser contaminada para poder produzir a pérola, não representa a dor do artista ao produzir suas obras.

(B) as pérolas não são o resultado de uma contaminação.

(C) as pérolas nascem da secreção do nácar feita aos poucos e logo se solidifica.

(D) muitas obras não são anônimas, assim como as pérolas que ficam no fundo do mar.

(E) o ato de escrever está relacionado à formação da pérola, que acontece de maneira involuntária.